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A Copa do Mundo de 1958, na visão de Mário Américo , ex-massagista da Seleção

Colunistas: 
Marcos Antônio

A Copa do Mundo de 1958, na visão de Mário Américo , ex-massagista da Seleção
 
    Dizem os entendidos que a construção dos estádios do Maracnã e e do Pacaembu e, posteriormente, do Mineirão e outros deu a infra-estrutura de que o futebol brasileiro precisava . É isso aí. Mas o futebol nacional começou a ganhar maturidade quando o comando da seleção veio para São Paulo. Não que os paulistas fossem melhores ou mais inteligentes que os cariocas. Nem menos politiqueiros, É que deu a sorte de a coisa cair nas mãos das pessoas certas. Gente correta. Podem dizer o que quiserem do dr. Paulo Machado de Carvalho , que é mandão , que é vaidoso - quem não é ! - , seja o que for , mas não podem dizer que não seja imparcial. Ele não pensa como paulista, pensa como brasileiro. E, o que é mais importante: ele pensa. 
 
    Foi por pensar qu reuniu três homens de sua confiança - os jornalistas Paulo Planet Buarque , Ary Silva e Flávio Laxetti - e encomendou-lhes um plano para a Copa do Mundo de 58. Como homem de negócios - como um dos pioneiros do rádio e da televisão no Brasil - , ele sabia que sem planejamento o futebol brasileiro jamais poderia conquistar a liderança de fato do futebol mundial. De nada adiantariam os supercraques , os bailarinos , os mágicos improvisadores da pelota , se por trás deles não houvesse um plano racional e detalhado , uma base, enfim, capaz de dar um valor prático ao talento dos nossos jogadores. Quando reuniu aqueles três homens pela primeira vez , Paulo Machado de Carvalho lhes disse : - teoricamente , o nosso futebol é o melhor do mundo desde a Copa de 1938 . Só que nós já  estamos às vésperas da Copa de 58 , e vinte anos de teoria é muita coisa. Eu quero que sejamos os melhores na prática. 
 
    Paulo Planet Buarque , Ary Silva e Flávio Lasetti trabalharam dia e noite com o dr.Paulo e desse esforço nasceu o plano que nos levou àquela fabulosa campanha na Suécia. A comissão técnica foi formada por Carlos Nascimento , Vicente Feola , dr. Hilton Gosling , Paulo Amaral ,  Mário Trigo e, modéstia à parte, eu , sob a direção máxima do "Marechal" Paulo Machado de Carvalho. E o plano geral foi seguido à risca , apesar de que havia um ponto fraco no dr, Hilton Gosling. 
 
Antes que a comissão fosse organizada e tomasse posse , houve muita confusão , muito diz-que diz. Falava-se em Fleitas Solich para técnico , o que causou muita celeuma , por ser ele estrangeiro, e depois acabaram indicando Sílvio Pirilo , que dirigiu a seleção contra os portugueses e contra os argentinos. Dos lusos, apesar da desorganização , ganhamos duas vezes, de 1 x 0  e de 3 x 0 . Com os argentinos , pela Taça Rocca - que não era disputada havia dez anos - , a coisa engrossou. Não havia nem campo para treinar e Pirilo chegou a andar de estádio em estádio com os jogadores , até que conseguiu um treino contra os juvenis do Botafogo. Além do mais ,  a seleção só foi convocada quando os argentinos já haviam chegado. Perdemos no Maracanã e ganhamos  no Pacaembu , mas Pirilo caiu e daí para adiante é que o dr. Paulo começou a tomar conta do negócio , até chegar ao ponto que queria:  o comando total , com carta branca e sem bronca. 
 
   Só assim foi posível o deslanche , que depois nos levou ao tri. E poderíamos ter chegado ao tetra, Até mesmo ao penta , se a CBD não fizesse o desfavor de trocar a comissão técnica em 66. Aí bagunçou tudo novamente . Em 70 , só houve a vitória porque Pelé e Gérson resolveram assumir o comando dos jogadores e decidiram quem saía , quem entrava e como se devia jogar, 
 
   Mas voltemos a 58.
 
    A preparação final para o certame de Estocolmo foi mais ou menos tranquila. Em Campos do Jordão já tivemos a certeza de que estava tudo certo. Tínhamos os craques certos , o treinador e o chefe certos. Íamos tentar sair da teoria à prática e estávamos bem armados para isso. A viagem, via Itália , com um jogo-treino contra a Fiorentina , só serviu para aumentar o nosso otimismo,  mas sem exageros. E assim chegamos à Suécia. 
 
    Apenas dois jogadores nos preocupavam: Dino e De Sordi , ambos com problemas musculares . O resto, tudo bem. Fomos para a concentração de Indas e ali vivemos uma temporada inesquecível , numa harmonia fora do comum. Só tinha que dar certo. Fizemos seis partidas fabulosas e, dos vinte dois jogadores , apenas seis nãoa atuaram em nehuma partida: Castilho, Mauro Ramos , Zózimo , Oreco , Moacir e Pepe. Todos, porém, de acordo com o regulamento , foram considerados campeões mundiais e receberam a respectiva identificação da FIFA , um cartão que é o único documento oficial. Dino Sani foi o que mais sentiu não participar da partida final.Dino, que saíra dos aspirantes do Palmeiras para uma carreira das mais brilhantes sempre teve problemas musculares.Quando teinava direito e ficava na ponta dos cascos , pronto , lá vinha uma distensão para estragar tudo.
 
    Já De Sordi era um pouco mais forte de músculos , embora tivesse também muitos problemas. Jogou quase todos os jogos a poder de tratamentos intensivos e só não entrou na última partida porque cometeu um erro grave, erro talvez que fosse revelado por outra direção, mas não por aquela, que não fazia média com ninguém e não queria saber de que clube era o jogador. Veremos: Quando do apronto para o jogo contra a Suécia , o De Sordi disse que não treinaria , pois queria descansar para o dia seguinte. Acontece que o médico não estava presente e o Paulo amaral, que era muito exigente , perguntou para o Feola por que o moço não iria treinar. Então eles me chamaram para saber como estava o jogador e eu fui franco, Disse que só poderia dar uma resposta sobre suas condições se o visse treinar. Feola não teve dúvida:
 
    - Se ele não treinar, não joga.
 
E foi o que aconteceu. Jogou Djalma Santos no lugar dele.
 
Agora anotem o detalhe , para ver a honestidade dessa comissão técnica , pois a decisão do Feola foi aprovada por todos: Di sordi era um dos três únicos jogadores do São Paulo FC na seleção. Os outros dois eram Dino e Mauro.  E o São Paulo FC era o time  do dr. Paulo e do Feola. 
 
     O dr. Paulo Machado de Carvalho era um homem super organizado. Mandava e não aparecia porque não queria aparecer. Era duro nas suas ordens e, embora aceitasse o diálogo , não andava pra trás de jeito nenhum quando tinha razão.  Queria tudo direitinho , não admitia a menor falha , muito menos a menor indisciplina, Vocês podem crer: se em vez do De Sordi fosse o Pelé , não jogava. E não jogava mesmo! Ele nunca pedia nada se não tivesse uma razão justa e válida para pedi-la. Por isso ,  no final ,  quando ele disse: "negrinho, eu quero essa bola" , eu suei gelado e decidi que apanharia aquela bola nem que tivesse que enfrentar metralhadoras. Suas razões eram justas e válidas , porque a bola da primeira Copa vencida pelo Brasil só poderia ir para um país: o Brasil. 
 
Seu lugar-tenente - o Carlos Nascimento - era outro cara fabuloso. Um raposão, enxergava de londe e tinha o um enorme coração. Foi utilíssimo , não só nessa Copa , mas em muitas outras.
 
     Outro coração imenso: o professor João Carvalhaes , psicólogo da delegação. Ele foi muito criticado porque , após examinar os jogadores, quis vetar alguns , resolver problemas emocionais dos jogadores , avaliar o nível mental de cada um. E o Garrincha, apesar de suas qualidades em campo , era... era, como direi para não ofender tão bela criatura! Bem, digamos que ele pensava como um menino de 12 anos. Convenhamos: não poderia ser , teoricamente , perigoso para uma equipe que desejava o título mundial. Se fossem feitos cortes sugeridos pelo Carvalhaes , ia ser o diabo. De qualquer modo , seu trabalho foi proveitoso.  Ele ajudou muitos jogadores. Hilton Gosling não gostava nem um pouco dele . E o sabotou o quanto pôde , a ponto de não permitir que recebesse a faixa de cmpeão  a que tinha direito como todos os outros membros da delegação. E mais: Carvalhaes fez um relatório muito importante , que poderia ser de grande utilidade para o futuro. Pois, para que esse relatório nunca fosse divulgado , Gosling mandou dar sumiço na mala do professor. E quem se encarregou disso foi o Mário Trigo. Foi a única sujeira dessa epopeia. 
 
     Paulo Amaral, o preparador físico , foi um dos baluartes da retaguarda. Já falei dele em outro capítulo , mas repito: - é o maior preparador físico do mundo. Pelo menos nunca ouvi falar de outro sequer igual a ele. 
 
     Hilton Gosling era um homeme muito inteligente. Não punha a mão em cumbuca. Quebrava a cumbuca. 
 
     Havia também o administrador José de almeida, homem educado e inteligente. Concordava com tudo , mas não decidia nada e sempre nos dava a dica de quanto seria o "bicho". 
 
     finalmente, o dentista , dr. Mário Trigo. Tinha mil funções oficiais e algumas por contra própria , por exemplo, conseguir mulheres para os jogadores e quebrar os galhos de todo mundo. Alegre, brincalhão , abusado, descontraído , tudo. Perto dele não podia haver tristeza. Vivia contando piadas do tempo do Império e a gente tinha que rir. Naquela histórica e maluca cerimônia do centro do gramado , após o jogo final , ele assumiu por conta própria a posição de mestre de cerimônias e, além de tudo o que já contei , fez mais esta: segurou o rei Gustavo pelo braço , puxou o dr. Paulo e disse ao soberano sueco , em português: 
 
     - Olha, King , este é o nosso chefe.
 
Sei que minha opinião pouco vale , mas de qualquer modo eu a dou: acho que todas as nossas comissões técnicas deveriam ser formadas por homens como o dr. Paulo Machado de Carvalho Flávio Costa , Feola , Carlos Nascimento , Brandão , Ernesto dos Santos, dr. Nilton Paes Barreto e Paulo Amaral. Homens que se entendem. Que não brincam em serviço. E são nacionalistas e não regionalistas. 
 
     O clube deles é a seleção. 
 
 
 
  Fonte: Memórias de Mário Américo- o Massagista dos Reis, , páginas 155 a 159. Matteucci , Henrique , 2 edição , com revisão histórica de Ricardo Petri. São Paulo: Editora Nacional , 1986.

 

 

Em 02 de novembro de 2019 - Grande Fortaleza- Ceará- Brasil 

Texto corrigido após a finalização da digitação.