Get Adobe Flash player
Recomende este Site!

Opinião: futebol brasileiro se recusa a evoluir e faz jogo dos grandes times da Champions parecer ficção

Colunistas: 
Marcos Antônio

Opinião: futebol brasileiro se recusa a evoluir e faz jogo dos grandes times da Champions parecer ficção

 

Por Alexandre Lozetti
Jornalista. Repórter. Fascinado por esporte. Apaixonado por futebol
 

O brasileiro transformou o futebol europeu numa obra de ficção. Soa o apito final, descem os créditos. Aplausos! Comentários breves sobre o encantamento gerado pelos jovens do Ajax e a epopeia de Manchester City x Tottenham. E volta-se à vida real, como se aquele espetáculo fosse inatingível como batalhas intergalácticas ou transformações em super-heróis.

A coragem de técnicos e jogadores, os estádios lotados, o respeito à justiça trazida pela tecnologia, o reconhecimento ao adversário. Assistimos como se fosse a uma produção futurista, sobre a qual nos limitamos a imaginar como seria bom se fosse real. Acontece que é.

+ Veja as notícias de futebol internacional

O buraco em que nos enfiamos é tão confortável aos velhos vícios que nos recusamos a aprender as lições mais didáticas e claras.

Não jogarão no Brasil protagonistas mundiais e nem haverá por aqui a prosperidade financeira europeia. Fato. Mas o respeito pelo jogo e a busca por métodos que levem ao seu desenvolvimento, de modo a torná-lo um entretenimento de maior qualidade ao público, não apenas são possíveis, como deveriam ser metas. Da CBF, dos clubes, das federações.

O orçamento do Ajax não está entre os 30 maiores da Europa e o clube sabe, tal qual os brasileiros, que perderá suas revelações para outros de maior poderio econômico.

Em fevereiro, reportagem do “New York Times” elucidou o projeto do Ajax para lidar melhor com essa realidade. Consiste, essencialmente, em acelerar o processo de formação para antecipar a promoção de jovens à equipe principal e tê-los por mais tempo. Isso é feito com treinadores que privilegiam o desenvolvimento individual em detrimento da montagem de times competitivos.

Foram investidos 26 milhões de euros na De Toekomst, academia de base do Ajax. Dinheiro que grandes clubes brasileiros gastam em reforços improdutivos num curtíssimo período.

Aqui, também formam para exportar, mas preferem se colocar no papel de vítimas das circunstâncias em vez de reunir mentes competentes para se adequar a elas.

O Ajax eliminou Real Madrid e Juventus tendo entre os protagonistas o volante Frenkie de Jong, 21 anos, já negociado com o Barcelona, e o cobiçadíssimo zagueiro Matthijs de Ligt, 19.

Diante da frustração da queda em sua primeira temporada com Cristiano Ronaldo, técnico e presidente da Juventus foram claríssimos: o Ajax mereceu a classificação. Sem qualquer tentativa de minimizar o feito do adversário ou busca de subterfúgios para a derrota.

Antoine Griezmann, campeão do mundo com a França e astro do Atlético de Madrid, parabenizou o sedutor espetáculo promovido pelo Ajax. Em sua equipe, Diego Simeone, técnico de feitos dignos de aplausos, começa a ser questionado pela falta de repertório com elencos mais abastados do que em temporadas mais gloriosas.

Também na semana, ninguém foi mais frustrado pelo VAR do que Pep Guardiola. Ele e seus jogadores foram ao cume da euforia com um gol salvador a um minuto do fim de um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos, e despencaram de cara no chão com o impedimento apontado pelo vídeo. Menos de uma hora depois, o técnico voltou a se dizer favorável ao VAR.

Não houve cerco à arbitragem, dedos em riste ou insinuações de teorias de favorecimento.

No Brasil, o futebol é encarado como instrumento para curar desilusões e satisfazer vaidades. O VAR não é bacana porque invalida um grito de gol, uma emoção genuína. Pouco importa se ele impõe justiça a um trabalho de semanas, meses, ou anos, no caso de Mauricio Pochettino, técnico argentino que levou o Tottenham à semifinal da Champions League depois de duas janelas de transferências sem nenhuma contratação sequer.

Só um treinador há cinco anos no cargo, como ele, poderia realizar tal feito. Cinco anos no cargo e uma temporada inteira sem reforços. Parece filme, mas não é.

Em entrevista ao repórter Arthur Quezada, do “Esporte Interativo”, Jürgen Klopp, técnico alemão do também semifinalista Liverpool, foi cristalino ao falar das trocas frequentes no futebol brasileiro. Só faltou desenhar.

– Se você está interessado em futebol, tem que aceitar o que precisa fazer. É um trabalho duro, trabalhar junto, trazer jogadores para que eles possam mostrar desempenho. Isso leva tempo. Se você não dá tempo aos jogadores, não consegue nada. Você começa tudo do zero e espera que alguém consiga consertar. (...) Você tem que sentir junto com o time, trabalhar junto, e isso não pode ser feito em uma semana, um mês, até mesmo em um ano. Esteja certo sobre o cara que você está contratando e dê a ele tempo. Assim deveria ser.

Klopp é celebrado pela maneira de encarar o futebol. Está no Liverpool há quase quatro anos. Não ganhou nenhum título. Por aqui, seria ridicularizado.

Mesmo com muito menos do que os europeus, o futebol brasileiro pode muito mais do que é hoje. Basta aceitar que o que se vê pela televisão – ou por qualquer outra tela – não precisa ser ficção.

 

 

 

Globo Esporte 
Divulgação: Site Eternamente Futebol 
Em 19 de abril de 2019, às 7h05
De Ligt gol Ajax x Juventus — Foto: REUTERS/Alberto Lingria