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Crônica de uma agonia. A alegria é azul, vermelho e branco

Colunistas: 
Marcos Antônio

Crônica de uma agonia. A alegria é azul, vermelho e branco
 
De pé enquanto o jogo não começava, a administradora Nilva Bezerra resumiu o espírito do torcedor do Fortaleza a 90 minutos do acesso à Série B: “Tô confiante, mas desconfiada”. Aos 67 anos, ela havia passado os últimos oito numa agonia. “Futebol é assim. E hoje os nervos estão à flor da pele.”
Pudera. O time era fraco, ela mesma admitia, mas, de última hora, quando nada fazia crer que iria embalar, o Leão tinha engatado a terceira sob o comando de Zago. Se descuidassem, perigava subir. “De hoje não passa. Se não for agora, não é nunca mais.” Era hoje.

O advogado Sinésio Santiago, 43, não pensava muito diferente. Leonino desde sempre, havia aprendido a esperar o pior quando a fase do mata-mata se aproximava no horizonte tricolor como uma nuvem anunciando chuvas e trovoadas. Escaldado por sucessivos reveses, quis fazer diferente em 2017.

Se antes viajava pra ver a segunda partida fora de casa, hoje tinha pedido uma tilápia frita num restaurante no Benfica. Se antes punha camisa e calção do time, hoje concedeu-se apenas a parte de cima. Se antes permanecia sentado na mesma posição durante todo o jogo, hoje estava relaxado.

Funcionou. “Foram oito anos fazendo tudo certo, mas dava errado no final. Resolvemos fazer tudo errado agora pra ver se dá certo.” Era um ensinamento que o próprio elenco tinha obedecido quase à risca.
Do outro lado da cidade, na Parquelândia, roendo as unhas e petiscando na mesa do bar, o policial militar Jefferson Cavalcante, 28, também foi realista na análise da situação tricolor: “Este foi o ano mais desastrado para nós. É difícil pensar em tudo que o Fortaleza já fez com a gente, sabe?”, perguntou, um tanto ressabiado.

E, no entanto, pouco mais de uma hora depois, lá estava o PM aos prantos nos braços da galera, desatando num soluço infantil, cobrindo o rosto e disfarçando as lágrimas engolidas por 2.290 dias de amargura na série C. Foi muito tempo nesse “suburbão” melhorado, é verdade, mas o time não morreu, como vaticinavam os adversários.

Pelo contrário. “Fazia cinco anos que eu descia as escadarias do Castelão chorando”, lembra, emocionado. Agora chorava na rua Gustavo Sampaio cercado por quase uma centena de torcedores.
Todos mais ou menos da idade de Bianca, Sarah e Ingrid, de 19, 17 e 21 anos, respectivamente, tricolores recém-chegadas à idade adulta para quem a presença do Leão na segunda divisão era como um sonho distante, de quando ainda estavam apreendendo a ler e a escrever.

Caso também de João Neto, 23. Faltando cinco minutos para o fim do jogo, o gerente comercial não se permitia relaxar: “Esse time é traiçoeiro”. Não deixou claro se falava do Leão ou do Tupi.

Relaxado desde o início da partida, tamanha era a confiança no sucesso do Leão, Gleydson Silveira, 45, tinha arrastado a mulher e as duas filhas até o bar. “Hoje vamos compensar esses oito anos. É uma promessa.” Falava a sério. Cirlene, a esposa, confirmou: “Ele sabe do que está falando. Tem muita fé nesse time. Sempre foi assim”.

E, para ilustrar, contou que, logo quando a filha nasceu, o marido levou-a para um jogo do Fortaleza. No bebê-conforto. “Fiquei louca, mas depois entendi. Era paixão.” A mesma coisa foi ontem.
Família reunida, Gleydson não comemorava apenas o acesso, mas também a lembrança do pai, morto um ano antes, com quem aprendera a amar as cores branca, vermelha e azul naquele mesmo bar onde agora chorava, sim, mas de felicidade. 

Fonte: Jornal O Povo 
divulgação: Site Eternamente Futebol