O texto profético de Nelson Rodrigues que coroou Pelé três meses antes da Copa de 58

O texto profético de Nelson Rodrigues que coroou Pelé três meses antes da Copa de 58
 
Pelé se eternizou além dos lances. Também se colocou acima dos números. Não se resume apenas à fama. É a aura que torna Pelé tão grandioso ao futebol. Porque, afinal, o camisa 10 lendário deixou de ser um simples humano há décadas – ainda que o humano, completando ontem , 23 de outubro de 2020 , 80 anos , continue reverenciado. O craque é, na verdade, uma entidade – e por isso , às vezes , a gente perde de vista o que foi, ou diminua o homem falível.
 
Não há sinônimo maior de futebol do que Pelé. E, por isso mesmo, o que carrega consigo acaba sendo muito mais sublime. É literatura, prosa de uma conquista ou poesia de um lance. É pintura, pincelada em seus gols. É música, resumida pela voz empolgada dos narradores que tiveram a honra de transmitir suas façanhas. Arte no estado mais puro e, ao mesmo tempo, mitológico. Pois o que importa, toque de exagero em uma realidade já superlativa, é o encantamento que todo mundo aguarda como clímax diante da bola.
 
Entre aqueles que melhor resumiram Pelé, está Nelson Rodrigues. E a pena privilegiada do cronista teve ares proféticos em 8 de março de 1958, a três meses do garoto de 17 anos eclodir na Copa do Mundo. Um reles América x Santos tornou-se caminho à coroação, possibilitada pelas palavras impressas na coluna do carioca na Manchete Esportiva. Classe em campo e no papel, que ajudam a sustentar essa aura do Rei. Merece todos os aplausos neste dia em que o legendário rei do futebol mundial completa 80 anos. Vida longa ao REI! 
 
A realeza de Pelé, por Nelson Rodrigues
 
Manchete esportiva ,8 de março de 1958
 
Depois do jogo América x Santos , seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura , que meu confrade ( Albert ) Laurence chama de "o Domingos da Guia do ataque".
 
Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: - dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes , inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta , custo a crer que alguém possa ter dezessete anos , jamais. Pois bem! - verdadeiro garoto , o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei , não sei se Lear , se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito , do seu peito parecem pender mantos mantos invisíveis.Em suma: - ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor. 
 
   O que nós chamamos de realeza é , acima de tudo , um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: - a de se sentir rei , da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário , é como quem enxota , quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: - "Quem é o maior meia do mundo"? 
 
   Ele respondeu com a ênfase das certezas eternas : - "Eu." Insistiram: - "Qual é o maior ponta do mundo?" E Pelé : - "EU." Em outro qualquer , esse desplnate faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage , que todos passam a admitir que ele seja , realmente , o maior de todas as posições. Nas pontas , nas meias e no centro , há de ser o mesmo , isto é , o incomparável Pelé. 
 
   Vejam o que ele fez , outro dia , já no referido Améroca x Santos. Enfiou , e quase sempre pelo esfoço pessoal , quatro gols em Pompeia. Sozinho , liquidou a partida , liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado , um americano doente estrebuchava: - "Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!"  De certa feita , foi até desmoralizante. Ainda no Primeiro tempo , ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado . Pelé não. Olha para a frente , o caminnho até o gol está  entupido de aadversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ,  ao encalço , ferozmente , o terceiro , que Pelé corta sensacionalmente. 
 
   Numa Palavra: - sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém , ele promeveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou o momento em que não havia mais ninguém para dribrar. Não existia uma defesa. Ou por outra: - a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga , Pelé achou que era demais driblar Pompeia e encaçapou de maneira genial e inapelável.  
 
   Ora , para fazer um gol  assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais , ou seja , essa plenitude de confiança , de certeza , de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível. quero crer que a sua mairo virtude é , a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola , que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha.Hoje , até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia , ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros , os ingleses , os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente , que precisamos. Sim , amigos: - aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos 
adversários uns pernas de pau.  
 
   Por que perdemos , na Suiça , para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. enquanto os húngaros erguem o rosto , olham duro , empinam o peito , nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante , por si só , antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time , e outros como ele , ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós. 
 
Por Leandro Stein 
Em 24 de outubro de 2020