Como funciona a formação de técnicos na Argentina e no Brasil

 

 

 
Por Eryck Gomes (@EryckWaydson)
 
Não é raro de se acompanhar a recorrente discussão sobre técnicos brasileiros: são ultrapassados? O tema esfria e esquenta dependendo das circunstâncias do futebol nacional. Trazendo números para o debate, o Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES), divulgou uma análise em junho com as nacionalidades dos treinadores espalhados pelo mundo. A Argentina lidera com folga, enquanto o Brasil guarda posição num modesto nono lugar. 
 
Por qual motivo ainda estamos tão atrás? É o idioma? Como é o processo de formação de um técnico na Argentina? E por aqui? Quais os custos? O Yahoo Esportes conversou com Leo Samaja, coordenador de cursos da Associação de Treinadores do Futebol Argentino (ATFA), e com Maurício Marques, de cargo homólogo pela CBF Academy.
 
Mergulhando nos números da CIES: a Argentina possui 68 técnicos espalhados por 22 países. Para se ter uma ideia de como a liderança vem com folga, o segundo lugar pertence à Espanha, com 41 profissionais em 21 nações. Em 9º, o Brasil tem 16 treinadores por oito regiões. O estudo foi feito considerando 1.875 clubes de 128 ligas. 
 

O caminho pela Argentina
 
Na Argentina, a caminhada até a permissão para treinar equipes a nível Conmebol inclui três licenças: B, A e Pro. A primeira dura 13 meses (R$ 700/mês); a segunda, 12 (R$ 700/mês); e a Pro, um semestre (R$ 1.400/mês). Todo o conteúdo é disponibilizado através do Campus Virtual, sendo apenas os exames finais na forma presencial. Os pré-requisitos são ter mais de 18 anos e ensino médio completo. A custo total da formação (desprezando provas presenciais), giram em torno de R$ 26 mil reais. Os cursos estão disponíveis nos idiomas espanhol, português, inglês e japonês e podem ser realizados de qualquer local do planeta.
 
Vale destacar: nem todos que concluem a formação de fato enveredam pelo caminho de treinador, como frisa Leo Samaja. 
 
“O número de jogadores fazendo os cursos é elevado, porque é um processo comum na Argentina. São muitos, mas não necessariamente buscam tornar-se treinadores no futuro. Não é uma regra. Muitos acabam se tornando representantes, agentes ou diretores. Na Argentina existe a exigência, para coordenação ou gestão de base, contar com cursos de treinador também. Isso faz com que muitos, além de querer enriquecer (intelectualmente) como atleta, também busquem para uma futura carreira de gestão.”
 
O sucesso da escola de treinadores argentinos é de amplo conhecimento. De cara, é fácil lembrar de nomes: Simeone, Marcelo Bielsa, Gallardo, Sampaoli, Mauricio Pochettino, etc. Ter esse selo de excelência vem de um processo longo. Desde 1994, possuir as licenças para desempenhar a função é obrigatório.
 
Vários são os fatores que podem influenciar na maior distribuição de técnicos argentinos por outros países. Além da própria formação, o poder de moedas mais fortes pode ser determinante. O idioma contribui, mas este argumento, muitas vezes utilizado como única condição, soa raso para Samaja 
 
“Eu te faço uma pergunta: na Inglaterra, falam espanhol? Na França, falam? E nos Estados Unidos? Essa seria a dificuldade? Não. Nos Estados Unidos falam inglês e o Tata Martino foi campeão da MLS (em 2018). Hoje temos o Schelotto no Los Angeles Galaxy, o Matías Almeyda no San José. Na Inglaterra temos o Marcelo Bielsa, tivemos o Pochettino. Enfim, perco a conta dos colegas viajando pelo mundo e tendo processos eficientes. Acho que a o idioma é uma justificativa que já caducou. Já estourou o prazo de validade. Quem continuar segurando, mantendo essa postura, é por não querer enxergar a realidade nem pretende fazer nada para mudá-la.” 
 
Publicado por Site Eternamente Futebol , em 27 de setembro de 2020 - às 18h

Foto: Marcos Antonio Vascocnelos Rodrigues - Redator do Site Eternamente Futebol